SANATÓRIO: Luz por baixo das Cortinas

Acordo todo dia com o alarme do celular tocando Crazy Train do Ozzy Osbourne. São 06:30 da manhã, e já consigo ver a luz do dia passando por baixo da cortina, iluminando o chão.
Não sei porque mas essa cena me incomoda demais. Me incomoda ao ponto de evitar olhar e levantar rápido para acender a luz antes de abri-as.

Como todo dia, vou ao banheiro, escovo os dentes e lavo o rosto. Algo que não entendo é que eu durmo a noite inteira, não me sinto cansado mas essas malditas olheiras não saem do meu rosto. Faz algumas semanas que elas apareceram e não importa o quanto eu durma, não somem.

Me troco e vou para o trabalho. Assim que entro no metrô e quando tento me segurar nas barras do teto do vagão, sinto uma dor horrível na nuca. Parecia que tinha tomado uma facada ou sido costurado. Não é uma boa hora para ter bico de papagaio ou bursite.

O dia passava normalmente apesar das dores, até que, durante o almoço, uma amiga me alertou de um fato curioso. Estávamos na mesa e ela disse:

-Nossa, nunca tinha percebido que você tinha heterocronomia! Que lindo!
-O que? Do que você está falando?
-Você tem heterocronomia, tem olhos de cores diferentes.
-Não tenho não! Meus olhos são azuis!
-Então como você me explica teu olho esquerdo estar verde?

Usei a câmera do celular como espelho e para minha surpresa, meu olho esquerdo estava verde. Um verde claro, só quem olhasse de perto conseguiria ver a diferença.
Mas é impossível que, em 34 anos de vida, eu e ninguém da minha família tenha percebido isso.

Quando voltamos do almoço pesquisei na internet e descobri que heterocronomia é algo genético, que acompanha desde o nascimento e em casos muito raros por algumas doenças, todas do tipo “síndrome-de-não-sei-o-que-lá”. E eu não tenho nada disso. Acho.

Saio do trabalho, vou para a academia e em seguida para a aula da pós-graduação. Logo esqueço desses fatos e a dor no pescoço também some.

Chego em casa, tomo um banho e faço o jantar. Assisto TV até começar a ficar com sono. Ligo pra minha namorada, Vanessa. Conversamos por uns 30 minutos. Desejo boa noite e desligamos.

São 23:55.

Me ajeito na cama e sinto o sono chegando.

Acordo assustado, por causa de um baque seco dentro do quarto. Abro os olhos e não enxergo nada, somente a luz passando por baixo da cortina. Devo ter acordado alguns minutos antes do celular despertar. Pego o aparelho e aperto o botão lateral. Ele acende e me mostra a hora.

São 01:40 da manhã.

Sem entender, olho novamente para as cortinas e meu sangue gela. Como uma paulada na cabeça, tudo me volta à mente.

O calor que percorre meu corpo paralisado. Aqueles olhos negros e brilhantes me olhando. As incisões, os cortes e perfurações. O pedaço de metal inserido na minha coluna e a máquina que quase arrancou meu olho. Sinto toda a dor de novo enquanto estava deitado e preso, como um rato de laboratório. E isso vem acontecendo praticamente todos os dias na última semana.

A luz embaixo da cortina fica muito mais forte e sinto meu corpo paralisar. Ouço um novo baque surdo enquanto uma silhueta sai das sombras e vem em minha direção. Ela é magra, com braços e pernas finos, um pescoço longo sustentando uma cabeça enorme com dois olhos negros e sem pálpebras. Aquele ser que não é natural de nosso planeta.

Só consigo gritar antes que minha voz seja abafada:

-NÃO! DE NOVO NÃO! DE NOVO NÃO…

***

São 06:30 da manhã. O celular vibrando e tocando Crazy Train me acorda. Mais um dia de trabalho se inicia.
E eu só queria que essa dor no pescoço passasse.

 

Tiago Sousa