SANATÓRIO: Magrelo

Quando criança eu adorava dormir na casa da minha avó. A casa dela era num bairro muito tranquilo de São Paulo, aquelas casas que tem garagem grande na frente da casa e um quintal dos fundos maior ainda.
Um sobrado grande, construído com muito custo, para abrigar os filhos e principalmente, os netos.

Eu era o segundo mais velho dos netos. Meu primo era mais velho, mas ele detestava ficar na casa de nossa avó. Dizia que não conseguia dormir direito, que se sentia mal e que não conseguia ficar dentro da casa, principalmente no andar térreo. Ele dizia que subir e descer as escadas eram a pior parte.

Meu avô havia falecido a muitos anos. Eu tinha uns 4 anos de idade quando ele faleceu, então não lembro como ele era. Eu pensava que minha avó era muito sozinha naquela casa enorme, mas sempre que alguém perguntava, ela respondia: “Não estou sozinha. Estou com Deus e meu ‘magrelo’ também olha por mim”. Magrelo era o apelido que minha avó tinha dado para ele.

Algumas semanas antes das férias do meio do ano, a casa da minha avó foi invadida por dois ladrões. Eles a amarraram e amordaçaram dentro do quarto enquanto faziam a limpa na casa. Mas minha avó conseguiu se soltar, e ligou para a polícia.

Quando os policiais chegaram, encontraram os dois ladrões mortos, deitados no pé da escada, e minha avó sentada no topo da escada aguardando os policiais.
Ela contou que os dois bandidos se enrolaram na hora de pegar uma TV de 50 polegadas e rolaram a escada, morrendo na queda.

A polícia duvidou da história, principalmente porque os dois homens apresentavam sinal de espancamento. Mas como uma senhora de 70 anos poderia ter espancado 2 jovens adultos até a morte? O IML recolheu os corpos, a polícia iniciou as investigações, mas minha avó não poderia ser detida pois não tinha nenhuma prova contra ela.

Minha mãe pediu para que eu passasse alguns dias com ela, pois tinha medo dela ficar sozinha após essa tentativa de assalto. Eu aceitei de bom grado, mas minha avó disse que não precisava, porque o meu avô estava cuidando dela.
– Meu magrelo tá sempre cuidando de mim. Fiquem em paz. – Ela dizia. Mesmo com relutância, ela aceitou que eu ficasse alguns dias com ela depois que minha mãe insistiu muito.

Logo no primeiro dia, durante a janta, ela me disse que de agora em diante era pra estarmos no quarto às 23h e sair só de manhã. E também para trancar a porta do quarto por segurança.
Parece que o assalto abalou a cabeça dela mais do que imaginava. Eu disse que não teria problemas, que faria exatamente o que ela tinha pedido. Não ia contrariar um pedido tão simples vindo da minha avó.

Nas primeiras noites nada aconteceu, tudo normal. Porém uma noite levantei de madrugada para procurar meu carregador de celular nas minhas coisas, que estavam ao lado da porta do quarto. Assim que abaixei para mexer dentro da mochila, ouvi passos no corredor, como se alguém tivesse passado andando rápido mas tomando muito cuidado pra não fazer barulho.

Meu sangue gelou. Será que algum parente ou amigo dos bandidos que morreram resolveu se vingar?

Novamente ouço os passos, mas agora descendo as escadas. Junto toda a coragem que eu tenho e destranco a porta e de decido ir ver o que está acontecendo.
Da porta do meu quarto, vejo que a luz do corredor do andar de baixo está acesa mas o andar de cima está muito escuro. Usando o celular como lanterna vou andando devagar até a ponta da escada e tento espiar o que tem no andar de baixo.

No outro dia, coloquei minhas roupas na mochila e fui embora. Amo minha avó mas nunca mais durmo na casa dela.
Por que?
Bom, quando cheguei na ponta da escada, descobri porque minha avô diz que meu avô ainda cuida dela e porque ela o chama de magrelo.
Como estava usando o celular de lanterna, acabei tirando uma foto sem querer. Não tenho coragem de ficar olhando para a imagem, mas algo também não me deixa deletá-la.
Posso dizer que é a única foto que eu tenho do meu avô.

 

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Tiago Sousa